A importância da curiosidade

É encantador observar a curiosidade de uma criança. A maneira como olham para o mundo, como pegam um objeto novo e tentam descobrir a sua função, fazendo testes que parecem engraçados a nós adultos, tão habituados àquela forma.

Permanecer-se curioso é um desafio: conseguir manter o olhar aberto e a disposição a experimentar. Aqueles testes aparentemente absurdos podem em algum momento fazer nascer um uso novo e criativo de determinado objeto.

Algumas crianças mesmo de pouca idade, já demonstram certa apatia frente a novas situações. Aquela curiosidade inicial pode ser substituída por uma ideia de que já se devia saber antes, que estar curioso é estar em falta e isso é ruim. Nessa vertente, admitir que não sabe é igualado a ser insuficiente, burro, inadequado, algo que não pode acontecer, não podendo instaurar o conhecimento verdadeiro. Essa fantasia pode estar na base de dificuldades sérias de aprendizagem enfrentadas por escolares.

Aliás, o que impulsiona a aprendizagem é a curiosidade. Só sendo curioso é que se descobre como as coisas funcionam. Se você não ficar curioso sobre o que está escrito nos lugares, não vai aprender a ler e a escrever. Se não se permitir ter curiosidade e investigar a função determinado botão, nunca vai saber para que ele serve. Se interessar pelo mundo, querer entender como ele funciona é das mais potentes forças motrizes para conhecê-lo.

A todos que convivem com crianças, pode ser importante permitir e incentivar a expressão dessa curiosidade, que acontece desde bebês, nas brincadeiras que realizam. É nossa tarefa então, dar-lhes a liberdade para experimentar o mundo com a segurança e proteção que necessitam.

As dores do crescimento

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Às vezes uma criança pode se queixar de dores, principalmente nas pernas, que quando levadas a um especialista, podem ser diagnosticadas como dores de crescimento. As causas, ainda não totalmente conhecidas, seriam um descompasso entre o crescimento dos ossos e dos tendões e músculos, uns podem se desenvolver mais rápido que outros, gerando sobrecarga. Mas a ideia é que em algum momento se igualem, cessando a dor. Dessa forma, há que se tolerar essa dor por um tempo, até que o crescimento se estabilize.

Quando falamos de crescimento psíquico, a metáfora com os ossos e tendões pode nos ajudar a pensar. Há muitas tarefas do crescimento psíquico para uma criança: ir desenvolvendo mais capacidade de tolerar as frustrações, responsabilidade, autonomia, aprender a cuidar de si mesma, desenvolver confiança, segurança, entre outros. E tudo isso não é nada fácil!

Uma mesma criança pode ter mais facilidade com alguma etapa da vida, sozinha se desinteressa do seio e larga a chupeta, se atira para andar, mas na hora de entrar na escola… dá certo trabalhinho. Há uma área dela fascinada pela ideia de crescer e outra que sente mais medo, quer recuar. Esses diferentes momentos vão precisar de diferentes tipos de ajuda dos pais.

Nos momentos onde a vontade de recuar parece prevalecer, as dores de deixar para trás uma forma de gratificação parecem tão intensas, que fica difícil os pequenos vislumbrarem o que ganham com aquilo e sentirem satisfação pelo crescimento. Eles choram, ficam até doentes, desesperados para voltar no tempo. Aí os pais podem ajudar muito! Como? Sendo firmes que a tarefa do crescimento é realmente necessária e continentes das reações a isso.

Crescer dói, mas não é por isso que a gente tem que deixar de fazê-lo. Digo isso, pois frente a determinadas reações do filho, os pais se sentem tentados a devolver a chupeta, tirar da escola, trazer de volta o filho que está estudando fora. É necessário sabedoria para diferenciar o que é uma reação que pode o estar protegendo de um amadurecimento precoce, sem consistência interna ainda para existir, da que passa a mensagem: “É filho, você realmente não dá conta de crescer, volte a ser pequenininho, é só o que você consegue”.

Alguns momentos de crise precisam ser suportados por toda a família, para a criança descobrir seus próprios recursos para lidar com a situação e finalmente poder se satisfazer e usufruir do seu crescimento. Precisamos, então, como no caso dos ossos, tolerar as dores, até que o crescimento se estabilize.

O difícil do limite

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Os cultivadores de rosa, para que ela cresça forte e bonita, a evolvem, ainda quando broto, em uma espécie de “redinha” flexível que oferece a liberdade necessária para que ela não deixe de crescer, mas com resistência para que ela não cresça desordenadamente. “Essa deve ser a metáfora para os pais pensarem o limite que oferecem para os filhos”, dizia uma grande professora minha. E esse certamente é um desafio, a eterna busca do meio termo: não ser nem rígido, nem permissivo demais.

Que criança precisa então do limite para crescer bem é fato conhecido e estabelecido. O difícil é colocar isso na prática, no dia-a-dia, com o filho lutando com tudo que tem pra conseguir aquilo que ele imagina que vai aliviar a angústia dele e os pais se sentindo esgarçados, desafiados em suas paciências e capacidades de segurar a raiva que a situação provoca.

O sonho de qualquer pai é a criança que aceita a hora do banho, de dormir (sozinha e tranquila em seu quarto), que come bem e pede mais brócolis na hora da refeição, que aceita que o presente é só nas datas especiais, que consegue esperar, que tem paciência. A realidade é que por mais que elas sejam diferentes, com suas dificuldades e potencialidades, ou seja, pode ser mais fácil para um filho que para outro, lidar com as frustrações, elas vão precisar de ajuda com o limite existindo de fora para dentro, para que um dia ele possa vir a existir de dentro pra fora.

Uma grande dificuldade que existe é de oferecer o limite, a resistência, o não e também oferecer colo para a reação que a criança demonstra. Oferecer o limite com continência. Suportar a própria raiva, o cansaço e acolher a criança em sofrimento. É isso que pode ajudá-la a criar esse espaço dentro dela mesma, para que ela consiga tolerar a pressão tremenda que sente dentro de si, quando não tem o que quer.

Porque ninguém gosta realmente de frustração, a gente gosta é de fruição, daquilo que vem, que acontece, que é fácil, que satisfaz. Mas aprender a lidar com contrariedade é das mais importantes e valiosas conquistas do desenvolvimento.

As várias mães que precisam nascer

mãe e filho

Picasso, “Mãe e filho” (1938)

Nasce uma mãe; dentro dela inauguram-se novas capacidades que ela não imaginava que existiam. Ela abre mão de calmos almoços, noites de sono, períodos de descanso e até de aspectos de sua carreira e do relacionamento conjugal. Aqueles sorrisos, abraços e sensação de importância na vida daquela pessoinha são incríveis e compensam o esforço despendido.

O tempo passa e no lugar do bebê vai nascendo uma criança que, aos poucos, vai conseguindo assumir algumas funções de cuidado consigo mesma: começa a comer sozinha (mas o bifinho ainda é a mãe quem corta), tomar banho sozinha, não precisa mais de ajuda para ir ao banheiro… E a mãe? A mãe muitas vezes se vê envolvida numa ambivalência: há um lado dela que sente muito orgulho pelo desenvolvimento do filho. Ao mesmo tempo, sente uma pontinha de ressentimento, de não ser mais tão necessária…

Mas será que não é mesmo? A verdade é que a necessidade muda e a cada nova conquista da criança a mãe tem que enfrentar um luto. Desde o próprio nascimento, passando pelo desmame, aguentar o filho dormir no próprio quarto, respeitar que ele já não precisa mais da fralda e depois de ajuda para se limpar ou tomar banho.

A primeira vez que ele consegue pentear sozinho o cabelo é uma festa! Mas tolerar aquele cabelinho meio esquisito que ele fez ou o tempo que ele precisa pra fazer, pode não ser tão fácil. E segurar o ímpeto de abrir as tampas, amarrar os sapatos e até cortar o bifinho

Teoricamente todos os pais querem que seus filhos cresçam e se desenvolvam em adultos autônomos e responsáveis. Na prática, pra que isso aconteça, o trabalho é árduo, não só com a criança, mas para aguentar ficar de fora em algumas situações, deixar de assumir algumas funções maternas e paternas, para que outras surjam e para que a habilidade de cuidar de si mesmo possa se desenvolver dentro do seu filho.

Se a dupla mãe e filho pode ter segurança que tem, um dentro do outro, um lugar especial e guardado, essas tarefas podem se tornar mais toleráveis. E um dia a mãe pode recuperar os calmos almoços, as noites de sono, os períodos de descanso e o investimento na própria carreira e na vida conjugal, tranquila que seu lugar único e especial estará para sempre no coração de seu filho.

O que vem por aí?

A chegada do irmãozinho

Um novo bebê agita qualquer família, seja quando inaugura a posição de filho ou ainda quando se soma a um já existente. É muito comum um filho “pedir um irmãozinho”. Por que será? Querer uma companhia, alguém para brincar, para exercer seu sadismo e autoritarismo (“quero um irmãozinho pra eu poder mandar nele”) ou ainda, num nível mais profundo, para sentir que a experiência que os pais tiveram com ele foi boa a ponto de quererem vivenciar isso de novo, com a “garantia” que nada nos pais foi danificado com o nascimento dele.

Mas podemos nos surpreender ao investigar o que a criança imagina que seria isso. Uma mãe engravida e vem mais um menino, o primeiro filho diz: “Mas eu não quero um irmão, quero uma irmã, pode devolver esse”. A cabeça da criança, ainda bastante concreta, pode funcionar assim: não gostou? É só devolver.

O filme “O pequeno Nicolau” (veja o trailer aqui) traz várias vivências de uma criança que imagina estar recebendo um irmão e o desespero no qual ele se envolve. Esses tempos, circulou um vídeo na internet (que pode ser acessado aqui) de um irmão com um recém-nascido no colo; de repente, não mais que de repente, ele joga o nenê pra trás e os pais saem desesperados.

Os mais puritanos dirão: “Mas que horror! Um irmão tem que gostar do outro, serem amigos”. É muito bom quando isso pode acontecer, mas uma relação verdadeira é ambivalente por natureza. Há momentos que se ama, partes da pessoa ou da posição que ela ocupa que se adora e outras que preferíamos que não existisse.

Ciúme, rivalidade e inveja. Trio danado de lidar dentro da gente, que está presente em muitos momentos, em várias relações. E o palco principal desse trio é a relação fraterna. As crianças são incríveis em sua transparência e muitas vezes em ainda não terem desenvolvido a capacidade de continência que os adultos (quando podem) têm. Vemos situações de brigas, armadilhas, delações e artimanhas em busca de serem especiais e privilegiados.

O ponto a ser destacado aqui é que a relação entre irmãos é permeada por diversos sentimentos, dos mais nobres aos mais difíceis e quando o dito cujo vai chegar inaugura-se uma relação que não existia e aparecem sentimentos que são muito trabalhosos.

Quando os pais podem estar atentos a isso, podem tentar acolher essas manifestações, acalmar a criança e garantir que o espaço no coração dos pais não vai ser dividido com o futuro bebê, mas sim vai nascer um novo espaço para o novo membro da família. A fantasia de abandono é muito comum no filho mais velho.

Com a agitação da chegada do novo bebê e todos os afazeres envolvidos, a família pode sentir que precisa tirar o filho mais velho de algumas atividades que este frequentava, de modo a facilitar a rotina da família. É necessário ter cautela, pois a criança já sente que perderá uma posição de filho único, teme perder mais que isso, é importante, portanto, preservar as atividades que ele já tinha, de repente contando com a ajuda de amigos e familiares na função de “mãe e paitorista”.

Quando é possível suportar os sentimentos difíceis, pode-se ver surgir uma relação muito intensa, íntima, de cumplicidade e companheirismo que só os irmãos conhecem.

Agitação ou hiperatividade

agitação

Um sintoma que tem afligido muitas crianças na atualidade é a agitação. Uma criança que não para quieta, corre o tempo todo, sempre buscando uma atividade, geralmente muito animada, para se envolver, muitas vezes preocupa pais e professores. Em certa medida, é bom que preocupe, a agitação excessiva é um sinal de algo não vai bem com aquela criança.

Claro que existem diferenças individuais, cada pequeno é de um jeito: alguns são mais ativos, questionadores, preferem brincadeiras movimentadas a atividades tranquilas e isso não é patologia. O complicado é aquela criança que não consegue se conter, mesmo nos momentos onde isso é exigido ou esperado dela ou melhor mesmo nos momentos onde ela mesma desejaria estar mais calma.

Funciona como uma dor de cabeça: ter uma ou outra de vez em quando é normal, às vezes estamos mais tensos, dormimos pior, descansamos menos, mas quando ela é frequente, não adianta só tomar analgésico todo dia, sinaliza outro problema.

A agitação tem uma função de acalmar a criança. Parece paradoxo, mas não é. Ela se vê tão estimulada, muitas vezes assustada, com o que se passa em sua mente: suas ideias, sentimentos, que corre por não conseguir muitas vezes narrar a si mesma o que acontece com ela. Na maior parte das vezes, ela não sabe dizer o que a incomoda, mas sempre é um incômodo que vai a deixar agitada. Não no sentido de uma causa e uma consequência, mas a mente dessa criança não está dando conta de pesquisar, processar e juntar informações sobre o que ela vive, pensa e sente, num sentido que a acalme sem recorrer à agitação, como com as brincadeiras por exemplo.

Aliás as brincadeiras são a forma que as crianças possuem de elaborar as situações que elas vivem. Brincar, para as crianças, é uma maneira muito sadia de manejar ansiedade, lidar com conflitos e se desenvolver. Mas correr de um lado pro outro não é o mesmo que esse brincar, trocar de atividade incessantemente também não. O brincar envolve um aprendizado de tolerância às frustrações inerentes à vida; tolerância essa, da qual um pequeno muito agitado pode estar se esquivando, acreditando que traria emoções tão turbulentas que ele não aguentaria.

Fazendo uma analogia para tentar entender a agitação em excesso, é como se a criança comesse e seu aparelho digestivo não conseguisse captar os nutrientes necessários ao corpo, que trazem crescimento e desenvolvimento, mas somente expulsasse tudo através de uma diarreia. Esse sintoma é uma forma de expulsar de si sensações muito incômodas. Mas, procedendo dessa forma com a expulsão, a criança também não aproveita dos nutrientes emocionais que as experiências de vida nos proporcionam. Eles muitas vezes não conseguem aprender na escola, têm dificuldade de fazer amigos por serem muito impulsivos e trazem transtornos à convivência familiar que fica muito permeada de broncas e reprimendas aos comportamentos perturbadores do filho.

A agitação então é um sintoma e não um diagnóstico em si. Nem toda criança agitada tem Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) como muitas vezes se pensa. O TDAH tem critérios específicos para ser aplicado como diagnóstico que envolvem atenção diminuída e impulsividade alta, além da agitação em si (que pode ou não estar presente nesse transtorno).

Acaba sendo um diagnóstico delicado de se fazer, é necessária uma pesquisa pormenorizada envolvendo entrevistas com os pais, observação da criança e relatos sobre o ambiente escolar. A agitação também pode ser um sintoma de um transtorno mais grave como aqueles do espectro autista ou as psicoses. Nesses casos existe muita dor e muito medo, na família, no profissional que os recebe, e muitas vezes passa a ser menos dolorido qualificar aquele comportamento como hiperatividade do que enfrentar a notícia da gravidade do que se passa.

É necessário coragem então, de todos os envolvidos, para enfrentar a problemática da agitação de frente e pesquisar o que de mais profundo a está deflagrando. É necessário também paciência e discernimento para distinguir o patológico do comum à infância, pois quanto mais nova a criança mais ela tende a se expressar através do corpo e, consequentemente, muitas vezes com a agitação.

Para diferenciar o normal do patológico, pode ser interessante pensar em uma questão de que prejuízos estão sendo vivenciados pela criança:

  • Ela está indo bem na escola ou há constantes situações conflituosas (na aprendizagem e/ou na convivência)?
  • Ela tem amigos e se relaciona bem com eles?
  • Há atividades nas quais consegue se concentrar e permanecer calma?
  • Dorme bem?
  • Há algum período de calmaria ou ela é “ligada no 220” o tempo todo?
  • Ela termina as atividades que começa?
  • É organizada?

Essas perguntas podem ajudar a pensar a situação, mas pode ser importante consultar um psicólogo habilitado para avaliar a especificidade de cada criança.

O retorno da mãe ao trabalho

coruja babá ou escola

“Quando nasce um bebê, nasce também uma mãe”. Todos os cuidados que um novo bebê exige e toda a carga emocional de receber um filho, fazem com que nos primeiros meses, principalmente, essa mãe recém-nascida tome conta da mulher. Mas há um momento no qual os outros papéis a chamam de volta: pode ser a hora de retornar ao trabalho.

O bebê não pode ficar sozinho, a mãe e o pai têm que trabalhar. E agora? Com quem deixar? Para aqueles que podem escolher, fica a dúvida: o que seria melhor, contratar uma babá para ficar em casa com o nenê ou colocá-lo em uma escolinha ou berçário? Há casais que podem contar com a vovó nesse momento. Hoje em dia, isso é cada vez mais difícil, pois as avós modernas também trabalham e têm seus afazeres. Mas mesmo as que estão disponíveis, há de se considerar se essa seria a melhor alternativa.

No momento de se pensar sobre a volta ao trabalho da mãe, a família já tem alguma estrada com esse bebê. Alguns meses já se passaram onde a proximidade com a mãe pôde desenvolver alguma confiança e esperança nesse bebê. A partir dos quatro ou cinco meses algumas mudanças acontecem na vida emocional do bebê que o “capacitam” a um melhor relacionamento com o mundo externo. Então mamãe, confie que vocês podem dar conta de viver mais essa separação. Seu bebê pode aproveitar essa oportunidade para estabelecer outros relacionamentos também significativos.

Se por um lado algumas mães se desesperam achando que seus pequenos não vão aguentar a distância, outras tendem a acreditar que, por ser tão pequenininho, o bebê não sentirá a falta da mãe. Ele sente sim! Aliás, é muito bom que sinta, é sinal que o bebê está se relacionando, é capaz de fazer vínculos e tem tido um desenvolvimento saudável. E mesmo sentindo falta é possível ele lidar com isso. Ele, ela e todos os envolvidos. Dificilmente o retorno da mãe ao trabalho acontece livre de ansiedade, mas a boa notícia é de que pode ser possível viver essa dor e sobreviver a ela. Como? Ficando atenta às manifestações do bebê (emocionais e também físicas) e podendo acolhê-las.

Quando a mãe precisa se ausentar, sair escondida do seu bebê, ao contrário do que alguns pensam, não é a melhor alternativa. Pode-se pensar que a criança, entretida com alguém ou algum brinquedinho, não perceberá. Isso alivia a mãe com sua dor de desapontar seu pequeno, mas a longo prazo, se a prática é mantida como rotina, pode acabar com a confiança do seu filho e fazê-lo sentir-se inseguro, precisando ficar colado à mãe, com medo de seus sumiços. Sentir as dores da vida é importante para nos capacitar a enfrentá-las.

Muitas vezes, a retomada do trabalho pela mãe coincide com o abandono do aleitamento materno exclusivo e a introdução de novos alimentos na rotina do bebê (tenho um texto sobre o tema que pode ser acessado aqui). É necessário um preparo então, para que haja tempo hábil para essas mudanças e suas manifestações aparecerem. Quem opta pela babá, pode ser interessante que a pessoa participe já da rotina familiar antes da mãe se ausentar, sendo gradualmente apresentada para o bebê, para que a família ganhe confiança nela e vice-versa. As escolinhas também têm um esquema de adaptação que tenta ajudar a dupla mãe-bebê nessa tarefa.

É interessante ressaltar que esse momento é a primeira experiência fora da família que o bebê vai ter. Aqui começa uma expansão dos laços e vínculos dele. A mamãe então pode sentir ciúmes do sorriso que seu filho dá para a babá ou professora. Pode sentir-se insegura quanto ao amor de seu pequeno por ela e da sua importância na vida dele. Também é possível que sinta medo de que a outra cuide melhor do bebê do que ela. Todos esses sentimentos são normais, quando podem ser tolerados pela mãe, quando ela pode também confiar em seu lugar junto ao filho. É importante então, para amenizar esses sentimentos difíceis que teimam em aparecer, que haja uma empatia entre a mãe e a pessoa que vai cuidar da criança, aquele “click”, que elas se dêem razoavelmente bem. Isso para que a mãe possa confiar que seu filho está sendo bem cuidado.

Nessa fase, o mais importante é o cuidado e o cuidado com afeto. Mas é melhor levá-lo à escolinha ou mantê-lo em casa? Antes do primeiro aniversário, se você tem uma pessoa de sua total confiança para acompanhar seu filho, é melhor deixá-lo em casa. Ele já está acostumado aos sons, ao cheiro, à rotina. O complicado hoje em dia é ter essa pessoa de confiança disponível. Colocar uma pessoa para trabalhar dentro de casa, cuidando do seu bem mais precioso é tarefa hercúlea na atualidade. Aí então podemos contar com as instituições que oferecem os serviços de berçário ou escolinhas para bebê. Em geral são locais adaptados, com funcionários treinados para os cuidados com a criança. E têm o peso de ser uma instituição com credibilidade a zelar. É preferível então deixar seu filho numa escolinha com adultos sensíveis e atenciosos que em casa jogado em frente à TV, assistindo a horas de Peppa Pig (um desenho infantil), enquanto a funcionária se divide entre a faxina, a comida e a atenção à criança.

Cada família tem uma necessidade, um orçamento e algumas possibilidades. Eu penso que se a decisão for pensada, analisada, conversada e deixar a mãe segura, ela tende a ser uma boa decisão. E também não precisa ser definitiva, qualquer caminho adotado, ao se verificar que não está dando certo, pode ser revertido e seguir-se uma direção contrária. A dica é não se deixar ir pelo caminho mais fácil: investigue sua funcionária, a escola pretendida, procure referências, converse com outras mães e bom trabalho!